Desde de criança, sempre estive ligado à arte. Comecei cantando na igreja evangélica que frequentava com minha mãe e meus irmãos. Minha família é muito musical. Meu pai não era evangélico e ouvia samba, boleros e muita música espanhola. Comecei cantando na igreja com 7 anos de idade. Também recitava pequenos poemas, ensinados por minha mãe. Quando adolescente, participava ativamente da aula de Artes. Colaborava na organização de peças teatrais e também escrevia pequenos textos para encenar. Eu tinha uma certeza àquela época: queria ser ator. Muitas coisas aconteceram, caminhos foram traçados e corrigidos, mas a arte sempre estava presente. Quando decidi fazer um pré-vestibular para tentar passar na UNB, fui cursá-lo no Colégio JK, em Taguatinga. Esse era um momento como o que vivo agora. Havia decido viver apenas da música ou da arte. Já tinha saído do emprego formal que havia trabalhado como Office Boy por dois anos. Eu estava ajudando meu pai a tomar conta de um bar em Águas Lindas. Me revezava entre o bar, a banda e algumas oficinas de teatro. Das oficinas que, algumas muito legais, entre elas com a Companhia A Culpa é da Mãe (hoje Melhores do Mundo) e também com o ator e diretor Ricardo Gutti. Apesar de ter família predominantemente negra e retinta, assuntos em relação às questões raciais e problemáticas sobre o racismo, não aconteciam na minha família. Por vários fatores, entre eles : religião e também a falsa ideia da igualdade racial plantada nesse país. Mas tínhamos outras formas de nos empoderarmos, entre elas: carinho e um orgulho danado de pertencimento. À época desse pré-vestibular, eu deveria ter uns 24 para 25 anos e não tinha o conhecimento sobre mim e minha ancestralidade negra, a importância da afirmação e a segurança de ser quem eu sou. Eu decidi fazer o pré-vestibular para concorrer a uma vaga no curso de Teatro, da Unb. Eu não tinha a mínima noção de como isso seria, pois a Unb era quase que proibitiva para negros e pobres. Sabia que queria, mas não tinha as informações adequadas. Pois bem, lá fui eu, como bom ariano, meter as caras. Uma noite, nesse espaço de preparação para a prova, estávamos no intervalo. Vale ressaltar que a maioria das aulas eu não entendia muita coisa, rs. A não ser as aulas de humanas e Português. Havia me formado no Segundo Grau Técnico, em Secretariado, à noite. Esses cursos eram herança da Ditadura. Do tipo: aos pobres um curso que qualificasse como mão de obra barata. Tudo muito precário. Tive que ralar um pouquinho mais tarde. Mas então, voltando ao pré-vestibular, estávamos em um intervalo, algumas pessoas conversando e eu não tinha muitos amigos ali. A maioria das pessoas eram brancas e aparentemente bem-nascidas. Eu era um intruso. Nessa roda de conversa, perguntas comuns como: que curso vc vai fazer? Quando chegou minha vez de responder, falei: vou fazer Teatro. Uma moça me afirmou: mas para ser ator precisa ser bonito. Essa fala me jogou em um buraco. Aquela época, eu era muito tímido, vergonhoso, também tinha vergonha dos meus traços negroides e acho que o teatro me ajudava a superar isso. Nesse buraco em que essa fala me levou, eu fiquei por muito tempo. Ela me considerava feio pela cor da minha pele. A gente que é perto, sabe os olhares e as falas preconceituosas. Simplesmente a gente sente sim.Acabei desistindo do pré-vestibular. Mas continuei fazendo teatro. Logo depois, integrei a Companhia de Artes Cênicas do Terceiro Mundo, a convite da atriz Tereza Padilha. Nessa companhia eu encenei Woydzeck, de Jorge Buchner, um clássico do teatro. Fui para a Argentina, em 1998, com essa peça e, voltando a Brasília, me dediquei somente à música. Um dia, fui assistir a um show no Pátio Brasil e era o Luiz Melodia. Eu carregava muito o peso dos estereótipos que se falam dos e para os negros.: não ande com roupa colorida, chama muita atenção por conta de sua cor, preto de vermelho não combina, preto tem que ser bem educado e várias outras coisas que diminuem e limitam a nossa subjetividade como pessoa. Esse show era do Luiz Melodia. Já tinha ouvido falar, mas não o conhecia verdadeiramente. Subiu ao palco aquele homem negro, todo de vermelho, com um grande orgulho de ser quem era. Aquilo transformou muita coisa em mim. Assisti ao show com muita atenção àquele personagem que esbaldava classe, beleza e orgulho ao dizer: “meu nome é Ébano…”. Muita coisa aconteceu de lá para cá. Cresci, casei, constitui família e aprendi com mestres no meu caminho como Neuza Santos Souza, Abdias do Nascimento, Lélia Gonzales, Malcom X, Luther King, Stive Biko e vários outros que nos formam e nos fazem enxergar como somos belos, com a cor e as características que temos. Somos pretos, lindos e temos orgulho de nosso pixaim. Também aprendi com amigos e amigas, parceiras e parceiros que passaram pelo caminho e hoje sou mais um que me tornei negro. Aquele buraco? Serviu para me fortalecer e hoje sou, canto, falo e faço o que quero. Porque sou PRETÁSTICO.

Texto publicado em @oqueficaoquesobraCeliomacielfoto