
– Suspeito, muito suspeito. Roupas coloridas demais para o padrão de nossa sociedade. Fazendo arruaça, juntando gente, cantando, esbanjando felicidade, hein? Não duvido que tenha uma boquinha, né vagabundo? Qual é o seu nome, rapaz?
– Meu nome é Samba, doutor delegado.
O delegado olha desconfiado, coça o queixo, faz cara de poucos amigos e cheio de ironia diz:
– Samba, Samba, Samba! Que nome mais esquisito! Poderia ser Joaquim, Manoel, João, José…Nomes que lembram a nossa grandiosa cultura herdada pelos portugueses. Mas acho que seria impossível, com essa corzinha você não teria esse nome, não é mesmo?
Todos na delegacia riem alto. Samba faz uma cara de quem não entendeu bem. O que teria a ver a cor dele com o nome? E o que um nome português o faria melhor ou diferente de outra pessoa? Fica intrigado, não querendo acreditar que o estão interrogando por conta da roupa, pelo nome, pela alegria e mais, por conta da cor da própria pele.
O soldado Pires, o mais puxa-saco entre os auxiliares do delegado, como todo puxa-saco, ainda procura reforçar a fala do patrão, com o que ainda chamaríamos de preconceito:
– Ora, chefe, e ele lá sabe onde é Portugal?
– Mas claro que sei, inclusive…
– Cale-se! disse o delegado, por um acaso lhe dei permissão de falar? Me diga, de onde você vem?
– Eu vim de África, na verdade estou aqui há muito tempo. Cheguei com uma gente bastante antiga, era criança. Com essa gente, vieram saberes, cantigas, muitas rezas e mandingas.
– Para mim, tudo isso que você falou é coisa de gente que não acredita em Deus, disse o delegado.
– Credo em cruz! Disseram os auxiliares fazendo o sinal da cruz.
– E onde fica este país, África? Perguntou o delegado abrindo um atlas, e com o dedo indicador percorrendo o continente europeu.
Samba, observando o equívoco, levanta-se da cadeira e com toda mandinga herdada dos ancestrais, diz:
– Creio que os senhores estão enganados! Talvez se olhassem mais à direita, veriam um grande continente, composto por diversos países. Ah senhores, África não é um país, mas sim, lugar de grandes reinos. Os senhores sabiam que lá se inventou a escrita? E as famosas pirâmides, sabiam que ficam em África? Ah, e ainda tem o papel, a cerveja, a engenharia, filosofia, matemática e a escrita, que nasceram neste lugar de pessoas da pele como a minha.
Um silêncio ensurdecedor cai sobre a sala. O delegado e os soldados se entreolham. Gargalham alto, tanto para zombarem de Samba, quanto para esconderem a própria ignorância.
– Ora, ora, ser delgado tem desses dias de diversão. Pois, onde já se viu, reinos em África? Reinos existem na Inglaterra, em Portugal, Suécia, nas grandes nações. O senhor…o senhor, não passa de um contador de histórias. Só me falta dizer que, que, com essa sua gente que veio pra cá, construíram o Brasil. Ora vejam…..
– Pois sim, senhor! Eu e meus familiares construímos este país. E temos muito orgulho de nossa contribuição à esta nação!
– Estou vendo que o senhor não é apenas contador de história. É um subversivo. E como subversivo, não pode estar a insuflar a imaginação das pessoas!
Samba foi preso, enquadrado como perigoso, subversivo e espião de alta periculosidade, que estava em terras brasileiras para desestabilizar o poder estabelecido. Com roupas coloridas, sorriso fácil, juntando as pessoas, contando histórias de um povo que por aqui chegou, vindo de longe, de uma terra onde reis e rainhas eram pretos e pretas, como ele, e causaram perturbação nas autoridades.
Nessa época, as verdades eram fabricadas e contrariar verdades absolutas trazia problemas. Da mesma maneira já tinha acontecido com outras pessoas vindas do mesmo continente que Samba, uma moça muito sabida chamada Capoeira e outro rapaz bastante imponente chamado Candomblé. Eles foram acusados de vadiagem, heresia, e foram proibidos de voltar ao Brasil.
Com Samba não foi diferente. Sentenciado a deixar o Brasil, conseguiu asilo em um país distante. Por lá transitou, ensinou, ajuntou gente, contou sobre a própria história e povo, espalhou malemolência por onde passou. Nesse tempo, ele ganhou outro nome, Bossa Nova.
Crônica de Marcelo Café